O que a compra da Avibras pelos Batista ensina sobre proteção patrimonial
Atualizado: há 3 dias
Joesley e Wesley Batista controlam um dos maiores conglomerados empresariais do país. Ainda assim, a compra da Avibras não foi feita pela JBS nem pela J&F.

Foto: Divulgação/J&F
O contrato para aquisição de 100% da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, foi firmado pela Globe Investimentos, veículo ligado aos irmãos Batista e apresentado na operação como seu family office. A transação ainda depende da aprovação do Cade e do cumprimento das demais condições previstas para o fechamento. Folha de S. Paulo
Esse detalhe societário parece pequeno. Não é.
Ele ajuda a compreender uma questão central do planejamento patrimonial: diferentes ativos, negócios e investimentos não precisam permanecer dentro da mesma empresa ou submetidos aos mesmos riscos.
Por que a compra da Avibras foi feita por outra estrutura?
A escolha da Globe Investimentos chama atenção porque os irmãos Batista já controlam a JBS e a J&F, empresas com atuação em setores relevantes da economia.
Mesmo assim, a aquisição da Avibras foi estruturada por meio de outro veículo de investimentos.
Não é possível afirmar, apenas com base na operação, todas as razões que levaram a essa escolha. Mas o desenho societário evidencia uma prática comum em estruturas patrimoniais mais organizadas: separar investimentos de acordo com sua natureza, seus objetivos e os riscos envolvidos.
Uma empresa operacional possui riscos próprios. Um investimento estratégico, uma participação societária ou um novo negócio podem exigir outra estrutura jurídica, financeira e de governança.
Essa separação não significa ocultação de patrimônio. Significa organizar o patrimônio de forma compatível com as atividades desenvolvidas.
O patrimônio da família não se confunde com o patrimônio das empresas que ela controla
Famílias empresárias podem acumular patrimônio em diferentes frentes: empresas operacionais, participações societárias, imóveis, aplicações financeiras e novos investimentos.
Cada uma dessas frentes está sujeita a riscos distintos.
Uma empresa industrial, por exemplo, enfrenta riscos trabalhistas, ambientais, regulatórios, comerciais e financeiros próprios de sua atividade. Não há razão automática para que um investimento sem relação direta com essa operação esteja exposto aos mesmos riscos.
A proteção patrimonial começa justamente nessa análise.
Não se trata apenas de saber quais bens uma família possui, mas de definir quais deles devem permanecer juntos e quais devem ser juridicamente separados.
A Globe já havia sido utilizada em outro investimento relevante
A compra da Avibras não foi o primeiro investimento conhecido realizado por meio da Globe.
Em julho de 2025, a empresa adquiriu 4,99% do capital da Usiminas em operação com a CSN. Na ocasião, a Globe também foi identificada como veículo de investimentos ligado aos irmãos Batista e fora do perímetro da J&F. Folha de S. Paulo
O movimento ajuda a compreender a diferença entre o patrimônio empresarial concentrado em um conglomerado e os investimentos realizados por seus controladores em uma estrutura distinta.
Não é necessário conhecer a motivação interna de cada operação para observar seu efeito: patrimônios mantidos em estruturas diferentes não compartilham automaticamente a mesma exposição jurídica e econômica.
Separar estruturas pode reduzir a concentração de riscos
Quando diferentes negócios são reunidos em uma única empresa, os riscos de uma atividade podem afetar todo o conjunto.
Uma operação industrial, por exemplo, pode gerar passivos trabalhistas, ambientais, regulatórios ou contratuais. Se outros ativos estiverem concentrados na mesma estrutura, eles poderão ficar sujeitos à mesma exposição.
A separação patrimonial busca evitar essa concentração desnecessária.
Isso pode envolver a criação de sociedades distintas, a utilização de holdings, a manutenção de investimentos em veículos próprios ou a organização de determinados bens fora das empresas operacionais.
A solução depende da realidade de cada família e de cada negócio. Não existe uma estrutura única que sirva para todos.
Proteção patrimonial não é esconder patrimônio
O termo ainda é frequentemente associado a uma ideia equivocada de ocultação de bens ou tentativa de afastá-los de credores.
Isso não é proteção patrimonial.
Transferências realizadas para frustrar credores, ocultar patrimônio ou esvaziar deliberadamente uma obrigação podem ser consideradas fraudulentas e desconsideradas judicialmente.
A proteção patrimonial legítima é preventiva.
Ela consiste em identificar previamente os riscos de cada atividade e organizar o patrimônio de forma coerente com essa exposição.
Também exige que as estruturas tenham propósito legítimo, documentação adequada, autonomia real e compatibilidade com a situação financeira e empresarial dos envolvidos.
É muito mais uma questão de organização do que de blindagem.
Uma holding pode ajudar, mas não resolve tudo
A holding é um instrumento. Não é o planejamento completo.
Em muitos casos, ela é útil para organizar participações societárias, facilitar a sucessão, estabelecer regras de governança e centralizar determinadas decisões patrimoniais.
Em outros, concentrar ativos demais em uma única estrutura pode produzir justamente o efeito contrário ao pretendido.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:
“Preciso de uma holding?”
Antes dela, outras questões são mais importantes:
Quais são os ativos da família?
Quais atividades geram maior risco?
Quais bens deveriam permanecer separados dessas atividades?
Existem investimentos que não precisam estar dentro da empresa operacional?
Quais ativos devem ser administrados em conjunto?
Quais exigem estruturas próprias?
Como a organização patrimonial afetará a sucessão, a governança e a tributação?
Só depois dessas respostas faz sentido escolher os instrumentos jurídicos adequados.
O princípio vale muito além das grandes fortunas
O caso chama atenção porque envolve os irmãos Batista e uma empresa estratégica da indústria brasileira de defesa.
Mas o problema não é exclusivo de famílias bilionárias.
Ele aparece quando um empresário mantém imóveis relevantes dentro da mesma sociedade que exerce uma atividade de risco. Quando uma família concentra investimentos financeiros e empresas operacionais na mesma estrutura. Ou quando diferentes negócios, com riscos completamente distintos, são reunidos apenas porque pertencem às mesmas pessoas.
Quanto maior a diversidade patrimonial, mais importante se torna essa separação.
A compra da Avibras pelos Batista é um exemplo atual de uma ideia simples: controlar grandes empresas não significa que todos os investimentos da família precisem estar dentro delas.
A proteção patrimonial começa por compreender quais patrimônios não devem correr os mesmos riscos e por construir uma organização jurídica coerente com essa realidade.
A separação entre patrimônio, risco e controle exige decisões antes da urgência. Se sua família ou empresa enfrenta uma reorganização patrimonial ou societária, solicite uma conversa estratégica.





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