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O que a compra da Avibras pelos Batista ensina sobre proteção patrimonial

22 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Joesley e Wesley Batista controlam um dos maiores conglomerados empresariais do país. Ainda assim, a compra da Avibras não foi feita pela JBS nem pela J&F.


Joesley e Wesley Batista, controladores da J&F e da JBS

Foto: Divulgação/J&F


O contrato para aquisição de 100% da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, foi firmado pela Globe Investimentos, veículo ligado aos irmãos Batista e apresentado na operação como seu family office. A transação ainda depende da aprovação do Cade e do cumprimento das demais condições previstas para o fechamento. Folha de S. Paulo


Esse detalhe societário parece pequeno. Não é.


Ele ajuda a compreender uma questão central do planejamento patrimonial: diferentes ativos, negócios e investimentos não precisam permanecer dentro da mesma empresa ou submetidos aos mesmos riscos.


Por que a compra da Avibras foi feita por outra estrutura?


A escolha da Globe Investimentos chama atenção porque os irmãos Batista já controlam a JBS e a J&F, empresas com atuação em setores relevantes da economia.


Mesmo assim, a aquisição da Avibras foi estruturada por meio de outro veículo de investimentos.


Não é possível afirmar, apenas com base na operação, todas as razões que levaram a essa escolha. Mas o desenho societário evidencia uma prática comum em estruturas patrimoniais mais organizadas: separar investimentos de acordo com sua natureza, seus objetivos e os riscos envolvidos.


Uma empresa operacional possui riscos próprios. Um investimento estratégico, uma participação societária ou um novo negócio podem exigir outra estrutura jurídica, financeira e de governança.


Essa separação não significa ocultação de patrimônio. Significa organizar o patrimônio de forma compatível com as atividades desenvolvidas.


O patrimônio da família não se confunde com o patrimônio das empresas que ela controla


Famílias empresárias podem acumular patrimônio em diferentes frentes: empresas operacionais, participações societárias, imóveis, aplicações financeiras e novos investimentos.


Cada uma dessas frentes está sujeita a riscos distintos.

Uma empresa industrial, por exemplo, enfrenta riscos trabalhistas, ambientais, regulatórios, comerciais e financeiros próprios de sua atividade. Não há razão automática para que um investimento sem relação direta com essa operação esteja exposto aos mesmos riscos.


A proteção patrimonial começa justamente nessa análise.


Não se trata apenas de saber quais bens uma família possui, mas de definir quais deles devem permanecer juntos e quais devem ser juridicamente separados.


A Globe já havia sido utilizada em outro investimento relevante


A compra da Avibras não foi o primeiro investimento conhecido realizado por meio da Globe.


Em julho de 2025, a empresa adquiriu 4,99% do capital da Usiminas em operação com a CSN. Na ocasião, a Globe também foi identificada como veículo de investimentos ligado aos irmãos Batista e fora do perímetro da J&F. Folha de S. Paulo


O movimento ajuda a compreender a diferença entre o patrimônio empresarial concentrado em um conglomerado e os investimentos realizados por seus controladores em uma estrutura distinta.


Não é necessário conhecer a motivação interna de cada operação para observar seu efeito: patrimônios mantidos em estruturas diferentes não compartilham automaticamente a mesma exposição jurídica e econômica.


Separar estruturas pode reduzir a concentração de riscos


Quando diferentes negócios são reunidos em uma única empresa, os riscos de uma atividade podem afetar todo o conjunto.


Uma operação industrial, por exemplo, pode gerar passivos trabalhistas, ambientais, regulatórios ou contratuais. Se outros ativos estiverem concentrados na mesma estrutura, eles poderão ficar sujeitos à mesma exposição.


A separação patrimonial busca evitar essa concentração desnecessária.


Isso pode envolver a criação de sociedades distintas, a utilização de holdings, a manutenção de investimentos em veículos próprios ou a organização de determinados bens fora das empresas operacionais.


A solução depende da realidade de cada família e de cada negócio. Não existe uma estrutura única que sirva para todos.


Proteção patrimonial não é esconder patrimônio


O termo ainda é frequentemente associado a uma ideia equivocada de ocultação de bens ou tentativa de afastá-los de credores.


Isso não é proteção patrimonial.


Transferências realizadas para frustrar credores, ocultar patrimônio ou esvaziar deliberadamente uma obrigação podem ser consideradas fraudulentas e desconsideradas judicialmente.


A proteção patrimonial legítima é preventiva.


Ela consiste em identificar previamente os riscos de cada atividade e organizar o patrimônio de forma coerente com essa exposição.


Também exige que as estruturas tenham propósito legítimo, documentação adequada, autonomia real e compatibilidade com a situação financeira e empresarial dos envolvidos.


É muito mais uma questão de organização do que de blindagem.


Uma holding pode ajudar, mas não resolve tudo


A holding é um instrumento. Não é o planejamento completo.


Em muitos casos, ela é útil para organizar participações societárias, facilitar a sucessão, estabelecer regras de governança e centralizar determinadas decisões patrimoniais.


Em outros, concentrar ativos demais em uma única estrutura pode produzir justamente o efeito contrário ao pretendido.


Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:

“Preciso de uma holding?”

Antes dela, outras questões são mais importantes:

  • Quais são os ativos da família?

  • Quais atividades geram maior risco?

  • Quais bens deveriam permanecer separados dessas atividades?

  • Existem investimentos que não precisam estar dentro da empresa operacional?

  • Quais ativos devem ser administrados em conjunto?

  • Quais exigem estruturas próprias?

  • Como a organização patrimonial afetará a sucessão, a governança e a tributação?


Só depois dessas respostas faz sentido escolher os instrumentos jurídicos adequados.


O princípio vale muito além das grandes fortunas


O caso chama atenção porque envolve os irmãos Batista e uma empresa estratégica da indústria brasileira de defesa.


Mas o problema não é exclusivo de famílias bilionárias.

Ele aparece quando um empresário mantém imóveis relevantes dentro da mesma sociedade que exerce uma atividade de risco. Quando uma família concentra investimentos financeiros e empresas operacionais na mesma estrutura. Ou quando diferentes negócios, com riscos completamente distintos, são reunidos apenas porque pertencem às mesmas pessoas.


Quanto maior a diversidade patrimonial, mais importante se torna essa separação.


A compra da Avibras pelos Batista é um exemplo atual de uma ideia simples: controlar grandes empresas não significa que todos os investimentos da família precisem estar dentro delas.


A proteção patrimonial começa por compreender quais patrimônios não devem correr os mesmos riscos e por construir uma organização jurídica coerente com essa realidade.

A separação entre patrimônio, risco e controle exige decisões antes da urgência. Se sua família ou empresa enfrenta uma reorganização patrimonial ou societária, solicite uma conversa estratégica.

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