Quando várias famílias são donas do mesmo clube: o que o Sevilla FC ensina sobre governança
- Isabella Nogueira

- há 2 dias
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Da construção de um dos clubes mais vitoriosos da Europa ao confronto entre pai e filho, a história do Sevilla mostra que propriedade compartilhada não significa necessariamente projeto comum.

A governança do Sevilla FC poderia ser analisada como mais um conflito entre acionistas de uma grande organização desportiva. Mas o caso chama a atenção por uma circunstância bastante peculiar. O atual presidente do clube, José María del Nido Carrasco, enfrenta há anos a oposição de seu próprio pai, José María del Nido Benavente, ex-presidente e principal acionista individual da sociedade.
A complexidade do caso sobressai a um mero conflito entre controlador e administração, e tampouco podemos dizer que é uma divergência entre pai e filho. Trata-se de uma disputa que atravessa simultaneamente família, propriedade e gestão.
O Sevilla, contudo, não é uma empresa familiar clássica. Não existe uma única família controladora que detenha a maioria do capital e transmita o comando de uma geração para outra.
O clube é uma sociedade anônima desportiva cujo capital permaneceu historicamente fragmentado entre diferentes famílias acionistas, entre elas Del Nido, Carrión, Alés, Castro e Guijarro, além de investidores externos que ingressaram posteriormente.
Essa configuração transforma o Sevilla em uma espécie de empresa multifamiliar, na qual o controle depende da capacidade de diferentes blocos proprietários formarem coalizões.
Um clube construído por sucessivas lideranças familiares
A presença das famílias nos órgãos de administração do Sevilla não é recente.
Rafael Carrión presidiu o clube entre 1997 e 2000, durante um período de dificuldades financeiras e desportivas. Após deixar a presidência, permaneceu entre os principais acionistas e seus filhos passaram a representar as ações da família e a ocupar posições no conselho de administração.
Carrión foi sucedido por Roberto Alés, cuja gestão, entre 2000 e 2002, é reconhecida pelo próprio clube como o período em que foram estabelecidas as bases para a posterior recuperação institucional e desportiva do Sevilla. Sua filha, Carolina Alés, também ingressou no conselho e permaneceu durante anos como representante da família.
Em 2002, José María del Nido Benavente assumiu a presidência, quando o Sevilla iniciou uma fase de expansão desportiva e internacional. Seu filho, José María del Nido Carrasco, ingressou nos órgãos de governo do clube ainda em 2006, inicialmente como vice-secretário do conselho.
Depois da saída de Del Nido, José Castro presidiu o Sevilla entre 2013 e 2023. Sob sua presidência, o clube conquistou cinco títulos da UEFA Europa League.
Em dezembro de 2023, Del Nido Carrasco, filho do antigo presidente (Del Nido Benavente), foi escolhido pelo conselho para sucedê-lo.
Vista isoladamente, essa sucessão de dirigentes poderia sugerir um modelo relativamente estável, com famílias historicamente ligadas ao clube, representadas por diferentes gerações, dividindo responsabilidades nos órgãos de administração.
Durante algum tempo, esse arranjo funcionou.
O problema surgiu quando a continuidade da propriedade deixou de ser acompanhada pela continuidade do consenso.
O poder não acompanha necessariamente a propriedade
Possuir ações e controlar uma sociedade não são necessariamente a mesma coisa, a estrutura acionária do Sevilha demonstram claramente tal distinção.
Segundo um levantamento publicado em novembro de 2025, a família Del Nido detinha aproximadamente 28% do capital; o bloco formado por José Castro, pelo chamado Grupo de Utrera e pela família Alés reunia cerca de 23%; a família Carrión possuía aproximadamente 15%; e o bloco de investidores conhecido como “os americanos” controlava outros 15%.
Nenhum desses grupos detinha, isoladamente, maioria suficiente para controlar a sociedade.
O governo do Sevilla dependia, portanto, de acordos entre acionistas, da composição do conselho e da capacidade de reunir votos nas assembleias.
José María del Nido Benavente era o maior acionista individual. Mas seu filho ocupava a presidência, apoiado por uma coalizão formada por outros blocos familiares e membros do conselho.
O próprio Del Nido Carrasco declarou, repetidamente, que permaneceria na presidência porque contava com o apoio do conselho e da maioria do capital social.
O caso revela, assim, uma separação particularmente clara entre três dimensões: propriedade econômica, influência política e autoridade administrativa.
O maior acionista não controlava o conselho. O presidente não dependia de uma participação pessoal majoritária. E os diferentes ramos familiares precisavam negociar continuamente para manter uma maioria funcional.
O pacto de governabilidade
Para organizar essa convivência, parte dos principais acionistas firmou, em novembro de 2019, um pacto parassocial destinado a regular a governabilidade do clube.
De acordo com as informações publicadas sobre seus termos, o acordo envolvia os principais acionistas, com exceção da família Carrión, e permaneceria vigente até 2027, salvo acordo entre as partes ou decisão judicial que determinasse o contrário.
Pactos dessa natureza podem disciplinar o exercício do direito de voto, a composição de órgãos administrativos, a indicação de dirigentes e a formação de maiorias.
Mas existe uma diferença entre um acordo capaz de organizar uma relação de confiança e um acordo utilizado para administrar uma relação na qual a confiança já desapareceu.
Com o agravamento do conflito, o pacto deixou de funcionar apenas como instrumento de estabilidade e passou a ocupar o centro da disputa.
O conselho recorreu às obrigações assumidas no acordo para limitar ou neutralizar votos de Del Nido Benavente. O ex-presidente, por sua vez, passou a questionar judicialmente tanto a vigência do pacto como seus efeitos sobre o exercício dos direitos políticos inerentes às suas ações.
As decisões judiciais trataram de aspectos diferentes do conflito e produziram um cenário complexo. Em junho de 2025, a Audiência Provincial de Sevilla reconheceu que o pacto continuava vigente enquanto não houvesse acordo entre as partes ou decisão definitiva em sentido contrário.
Em setembro daquele ano, porém, uma decisão de primeira instância determinou que o clube não impedisse Del Nido Benavente de votar em futuras assembleias. Em junho de 2026, as partes chegaram a solicitar a suspensão de processos mercantis relacionados ao conflito.
Com isso, a governança do clube passou a depender cada vez mais da interpretação judicial de instrumentos que originalmente deveriam promover estabilidade.
Quando o conflito familiar entra no conselho
A dimensão mais simbólica do caso está na relação entre pai e filho. José María del Nido Benavente procura recuperar influência sobre o clube e substituir o conselho. José María del Nido Carrasco preside exatamente o órgão que seu pai pretende destituir.
Essa circunstância desafia a ideia de que a presença da geração seguinte representa automaticamente a continuidade do projeto da geração anterior.
Neste caso, a sucessão biológica ocorreu, mas a sucessão política, não.
O filho ingressou nos órgãos do clube durante a presidência do pai, construiu sua própria trajetória institucional e, posteriormente, passou a integrar uma coalizão contrária às pretensões paternas.
O Sevilla oferece uma demonstração quase literal do modelo dos três círculos das empresas familiares:
Como filho, Del Nido Carrasco pertence à família (família);
Como acionista, possui direitos patrimoniais e políticos (propriedade);
Como presidente e administrador, deve exercer suas funções considerando o interesse social do clube (gestão).
Essas três posições não conduzem necessariamente à mesma decisão.
Um filho pode entender que proteger a sociedade exige contrariar o pai. Um acionista pode desejar substituir a administração. Um administrador pode considerar que obedecer ao acionista que o indicou seria incompatível com seus deveres perante a companhia.
Sem instâncias próprias de governança familiar, essas divergências deixam de ser tratadas no âmbito da família e migram para assembleias, conselhos, tribunais e meios de comunicação.
Da coalizão vitoriosa à crise econômica
O modelo de coalizão entre famílias acompanhou o período mais vitorioso da história do Sevilla. Mas o sucesso desportivo também contribuiu para elevar o tamanho, os custos e a complexidade da organização.
Quando os resultados desportivos e as receitas europeias diminuíram, as fragilidades econômicas ficaram expostas.
As contas da temporada 2024-2025 registraram perdas de aproximadamente €54 milhões. Somadas às perdas de cerca de €19 milhões em 2022-2023 e €82 milhões em 2023-2024, o resultado negativo acumulado nas três temporadas aproximou-se de €155 milhões.
A deterioração econômica alterou também os incentivos dos proprietários.
Enquanto o clube crescia, a coalizão permitia distribuir influência, prestígio e posições administrativas entre as famílias. Quando o valor das ações passou a ser ameaçado pelas perdas, pelo endividamento e pela instabilidade desportiva, a venda tornou-se uma alternativa cada vez mais atraente.
O conflito deixou de envolver apenas quem governaria o Sevilla e passou a envolver também quando, como, por quanto e para quem as famílias venderiam suas participações.
A tentativa de venda a Sergio Ramos
No início de 2026, Sergio Ramos, antigo jogador do clube, liderou uma proposta para adquirir a maioria do Sevilla em conjunto com investidores.
O processo avançou para uma fase de negociação exclusiva e auditoria financeira. Em maio, chegou-se a noticiar que havia um acordo entre Ramos e os principais acionistas. A operação, contudo, não foi consumada.
Em 1º de junho, as famílias Castro, Guijarro, Carrión, Alés e Del Nido Benavente divulgaram um comunicado acusando o grupo comprador de alterar substancialmente o perfil dos investidores e as condições inicialmente discutidas. Ramos contestou essa versão e afirmou que continuava disposto a negociar.
Após o fracasso da operação, os acionistas anunciaram a retomada de conversas com outros interessados.
Pouco depois, Fernando Carrión e Carolina Alés, representantes de duas das famílias mais tradicionais do clube, deixaram seus cargos no conselho.
Atualmente, o Sevilla continua formalmente sob a presidência de Del Nido Carrasco, mas com uma administração cada vez mais transitória e pressionada pela necessidade de uma mudança de controle.
Quando várias famílias são donas do mesmo clube: o que a governança do Sevilla FC ensina
O primeiro ensinamento é que uma coalizão de famílias proprietárias também precisa de governança familiar.
Cada família necessita definir quem representa suas ações, como seus membros formarão uma posição comum, quais critérios serão utilizados para indicar conselheiros e como serão administradas divergências internas entre gerações.
O segundo é que um pacto de acionistas não substitui um projeto compartilhado.
O acordo pode estabelecer obrigações de voto e mecanismos de estabilidade. Mas não consegue, sozinho, produzir confiança, legitimidade ou convergência estratégica.
O terceiro é que sucessão patrimonial e sucessão política são processos diferentes.
Os herdeiros podem receber ações sem compartilhar a visão dos antecessores. Também podem assumir posições no conselho e formar alianças com outros blocos proprietários.
O quarto é que o conselho de administração não deve funcionar apenas como uma reunião de representantes familiares.
Quando cada conselheiro atua exclusivamente como delegado de determinado ramo proprietário, torna-se difícil construir uma visão institucional que ultrapasse os interesses de curto prazo de cada grupo.
O quinto é que a venda da empresa também exige governança.
Quem pode negociar? É necessário vender conjuntamente? Qual será o preço mínimo? Que garantias devem ser exigidas do comprador? Como preservar ativos essenciais, identidade e legado? Qual será o papel das famílias depois da operação?
Sem respostas previamente acordadas, a venda deixa de ser uma decisão estratégica e passa a ser mais um campo de disputa.
Governança não é apenas decidir quem ocupa a presidência
O Sevilla não entrou em crise porque havia famílias entre seus acionistas.
Durante anos, foram justamente essas famílias que sustentaram a recuperação do clube e participaram da construção de seu período mais vitorioso.
A crise surgiu porque a governança não evoluiu na mesma velocidade que o valor econômico do clube, a complexidade da organização, a entrada das novas gerações e a fragmentação dos interesses proprietários.
O caso demonstra que tradição pode conferir legitimidade, ações podem conferir direitos e pactos podem organizar votos. Mas nenhum desses elementos, isoladamente, garante continuidade.
Quando família, propriedade e gestão deixam de compartilhar uma direção, até uma organização com história, patrimônio e reconhecimento internacional pode passar a depender de decisões judiciais e negociações emergenciais para definir o próprio futuro.
No Sevilla, o problema nunca foi a ausência de proprietários. Foi a ausência de um projeto comum capaz de sobreviver aos seus proprietários.




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